Estudo | Cientistas desvendam o “código genético do glúten” e ajudam a melhorar a qualidade do trigoBlog
📸 Chilebio com recurso a IA


Uma equipa de investigadores chineses conseguiu mapear em detalhe o genoma de uma variedade de trigo conhecida pela elevada qualidade do seu glúten, revelando que a qualidade da farinha não depende apenas de alguns genes-chave, mas sim de uma rede complexa de interações entre diferentes genes. O estudo mostra que estas interações podem ser decisivas para a elasticidade e estabilidade da massa, características essenciais para pão, massas e outros produtos alimentares. Os resultados sugerem que o melhoramento do trigo poderá no futuro ir além da seleção de genes isolados, passando a considerar combinações genéticas mais complexas.

✍️ Carla Amaro / CiB

A qualidade do trigo utilizado na alimentação humana não depende apenas da quantidade produzida no campo, mas também da forma como a sua farinha se comporta durante o processamento. Essa qualidade está sobretudo ligada ao glúten, um conjunto de proteínas presentes no grão que determina a elasticidade e a estrutura das massas.

Um novo estudo liderado por investigadores chineses deu um passo importante na compreensão deste processo ao “descodificar” parte do chamado código genético do glúten. A equipa analisou o genoma de alta qualidade de uma variedade de trigo harinheiro chamada Jimai 44, conhecida pelo seu bom desempenho na panificação e pela força do seu glúten.

O trabalho mostra que os genes responsáveis pelas proteínas do glúten estão localizados em regiões muito complexas do genoma do trigo, difíceis de analisar até agora. Ao estudar essas regiões em detalhe, os investigadores concluíram que a qualidade da farinha não resulta apenas da presença de alguns genes considerados “bons”, mas sim da interação entre várias famílias de genes, muitas delas altamente variáveis.

Essa descoberta é importante porque muda a forma como se entende o melhoramento do trigo. Até agora, os programas de seleção genética focavam sobretudo alguns genes associados a glúten forte. No entanto, este estudo indica que a realidade é mais complexa: a forma como diferentes genes interagem entre si pode ter um impacto tão ou mais relevante na qualidade final da farinha.

Os investigadores também analisaram a evolução destes genes ao longo da história do trigo, desde a sua domesticação até ao melhoramento moderno. Os resultados mostram que a seleção humana teve influência em diferentes fases, favorecendo em alguns casos combinações genéticas associadas a melhor desempenho na panificação.

Outro dos pontos-chave do estudo é a importância das chamadas interações entre genes. Estas interações significam que o efeito de um gene pode mudar dependendo dos outros genes com que está combinado. No caso do glúten, isto ajuda a explicar porque algumas variedades de trigo apresentam melhor desempenho industrial do que outras, mesmo quando partilham genes semelhantes.

Os autores defendem que estes resultados podem abrir novas estratégias para o melhoramento do trigo, permitindo desenvolver variedades mais estáveis, adaptadas à indústria alimentar e com melhor qualidade tecnológica. Em vez de procurar apenas genes isolados, o futuro poderá passar por selecionar combinações genéticas mais eficazes.

Este avanço científico poderá ter impacto direto na produção de alimentos como pão, massas e produtos de pastelaria, contribuindo para melhorar a consistência e qualidade da farinha utilizada na indústria alimentar.

Estudo publicado em Nature Plants, divulgado por instituições científicas chinesas (IGDB/CAS e Academia de Ciências Agrícolas de Shandong).