Edição genética | Batatas geneticamente editadas com a tecnologia CRISPR são testadas para combater doença devastadoraBlog
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Investigadores da Wageningen University & Research, nos Países Baixos, iniciaram um ensaio de campo com batatas modificadas através de novas técnicas genómicas, incluindo CRISPR-Cas, para avaliar a resistência ao míldio tardio, uma das doenças mais destrutivas desta cultura. O objetivo é reduzir o uso de fungicidas e desenvolver variedades mais resilientes.

✍️ Carla Amaro / CiB

Num campo agrícola próximo de Lelystad, nos Países Baixos, investigadores da Wageningen University & Research deram início a um ensaio de campo com batatas desenvolvidas através de novas técnicas genómicas (NTG), como a edição genética CRISPR-Cas e a introdução de genes de resistência. O estudo pretende avaliar a capacidade destas plantas para resistirem ao Phytophthora infestans, o agente responsável pelo míldio tardio, uma das doenças mais devastadoras da cultura da batata em todo o mundo.

As plantas utilizadas pertencem à variedade Innovator e, visualmente, não se distinguem de batatas convencionais. No entanto, algumas linhas foram modificadas para incorporar um ou dois genes adicionais de resistência ao patógeno, enquanto outras foram editadas com recurso à tecnologia CRISPR-Cas para desativar de forma precisa um gene específico.

Segundo Ania Lukasiewicz, investigadora da Wageningen Plant Research e responsável pelo projeto, o principal objetivo é “reduzir ao mínimo a necessidade de aplicar produtos químicos” e perceber se as modificações genéticas permitem aumentar efetivamente a resistência das plantas à doença.

O ensaio inclui diferentes estratégias de maneio agrícola: algumas plantas não receberão fungicidas, outras terão aplicações regulares e um terceiro grupo será tratado apenas em função do nível de infeção observado no campo. Os investigadores pretendem comparar os resultados para perceber até que ponto as novas variedades conseguem manter a produtividade com menor dependência de tratamentos químicos.

O Phytophthora infestans é considerado um patógeno altamente variável, capaz de ultrapassar mecanismos de resistência se estes não forem corretamente geridos. Por isso, os cientistas sublinham a importância de combinar biotecnologia, monitorização agronómica e estratégias adequadas de gestão da resistência.

Além das linhas principais em teste, o campo experimental inclui ainda pequenas parcelas com outras combinações de genes de resistência e linhas editadas por CRISPR que nunca tinham sido avaliadas em condições reais de cultivo. Estas plantas não receberão qualquer aplicação durante o ensaio.

As modificações genéticas foram desenvolvidas integralmente na Wageningen University & Research. Para a introdução de genes, os investigadores recorreram à bactéria Agrobacterium tumefaciens, amplamente utilizada em biotecnologia vegetal pela sua capacidade natural de transferir ADN para células vegetais.

O projeto surge numa altura em que a União Europeia discute um novo enquadramento regulatório para as novas técnicas genómicas. Em abril de 2026, o Conselho da União Europeia adotou uma posição que distingue entre plantas consideradas equivalentes a variedades convencionais e outras que continuarão sujeitas à legislação aplicável aos organismos geneticamente modificados. O novo quadro legal ainda terá de ser formalmente aprovado pelo Parlamento Europeu.

Os primeiros sinais da presença de Phytophthora infestans são esperados durante o verão europeu, permitindo aos investigadores observar diferenças entre as várias linhas em campo. A colheita está prevista para setembro ou início de outubro de 2026, altura em que deverão começar a ser conhecidos os resultados do ensaio.

Este tipo de investigação reflete o crescente interesse em utilizar edição genética e outras NTG para desenvolver culturas mais resistentes às alterações climáticas e às doenças, contribuindo para reduzir perdas agrícolas e diminuir a dependência de produtos fitofarmacêuticos.

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