Edição genética | Nova técnica pode transformar ovos em fonte de proteínas medicinaisBlog
📸 Abbie Lankitus


Investigadores da Universidade do Missouri desenvolveram uma nova abordagem de edição genética que evita o “silenciamento” de genes em galinhas, abrindo caminho à produção estável de proteínas úteis para a medicina diretamente nos ovos.

✍️ Carla Amaro / CiB


Uma equipa de cientistas da University of Missouri, nos EUA, apresentou um avanço significativo na área da genética aviária ao desenvolver uma técnica inovadora de edição genética que poderá permitir às galinhas produzir proteínas de interesse médico nos seus ovos.

O estudo responde a um problema antigo conhecido como silenciamento epigenético, um fenómeno que faz com que genes introduzidos artificialmente no ADN acabem por ser “desligados” ao longo do tempo. Esta limitação tem dificultado a criação de linhas estáveis de animais geneticamente modificados, sobretudo quando se pretende que as alterações sejam transmitidas às gerações seguintes.

Para ultrapassar este desafio, os investigadores recorreram à tecnologia CRISPR e direcionaram a inserção genética para um gene associado à enzima GAPDH, essencial para o metabolismo da glicose. Como esta enzima está ativa em praticamente todas as células e de forma contínua, a equipa partiu do princípio de que qualquer gene inserido nesta região também permaneceria ativo.

Para confirmar a hipótese, os cientistas introduziram um marcador fluorescente que permite observar se o gene permanece “ligado”. Após vários meses e múltiplas divisões celulares, os resultados mostraram que o marcador continuava ativo, indicando que o silenciamento genético não ocorreu.

Este avanço representa uma prova de conceito importante para o desenvolvimento de galinhas geneticamente modificadas capazes de produzir, de forma consistente, proteínas com aplicações clínicas — como anticorpos usados na prevenção de doenças virais, incluindo a gripe. Atualmente, os ovos já são utilizados para a produção de alguns destes compostos, mas a nova abordagem poderá tornar o processo mais eficiente e previsível.

Além das aplicações médicas, a técnica poderá ter impacto na agricultura e na economia. Os investigadores apontam, por exemplo, a possibilidade de introduzir genes que reduzam a transmissão da gripe aviária, garantindo que estas características benéficas se mantêm ativas e são herdadas ao longo das gerações.

A investigação foi publicada na revista científica Poultry Science e contou com financiamento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Os cientistas estão agora a colaborar com parceiros académicos e industriais para explorar aplicações práticas desta tecnologia e identificar as modificações genéticas com maior potencial impacto.

Mais informações no comunicado de imprensa da Universidade do Missouri.