CRISPR | Batatas que não escurecem: edição genética pode reduzir o desperdício alimentarBlog

 
Investigadores chilenos desenvolveram variedades de batata que escurecem muito menos após o corte, recorrendo à edição genética de precisão. O avanço, conseguido sem introdução de genes externos, promete reduzir perdas ao longo de toda a cadeia alimentar e reforçar a sustentabilidade do sistema agroalimentar.


O escurecimento da batata depois de cortada, descascada ou durante o armazenamento é um problema antigo, conhecido tanto pela indústria como pelos consumidores. Embora não afete a segurança alimentar, compromete a aparência do produto, reduz o seu valor comercial e contribui para o desperdício. Num país como o Chile, onde se perdem anualmente mais de cinco milhões de toneladas de alimentos, este fenómeno representa um desafio económico e ambiental significativo.

Um estudo recente, publicado na revista científica Agronomy, revela um avanço relevante nesta área. Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigaciones Agropecuarias (INIA), liderada pelo cientista Humberto Prieto, conseguiu desenvolver linhas de batata com oxidação retardada através de edição genética de precisão, sem incorporação de ADN externo. O trabalho insere-se num projecto institucional que visa modernizar o melhoramento vegetal no Chile com recurso a ferramentas como o sistema CRISPR/Cas.

O escurecimento da batata ocorre quando a enzima polifenol oxidase (PPO) entra em contacto com o oxigénio após danos mecânicos, como o corte. No estudo, os investigadores focaram-se no gene PPO2, identificado como um dos principais responsáveis pelo pardeamento visível do tubérculo. Utilizando a ferramenta CRISPR-Cas9, editaram de forma precisa este gene na variedade chilena Yagana-INIA, adaptada às condições agroclimáticas nacionais.

Após o processo de edição, foram obtidas várias linhas candidatas, avaliadas através de testes visuais e bioquímicos. Duas destacaram-se por apresentarem uma redução significativa do escurecimento após 24 horas de exposição ao ar. Uma dessas linhas revelou-se particularmente relevante por não conter sequências do sistema Cas9 nem ADN do vector utilizado, confirmando tratar-se de uma batata editada sem transgenes.

Este detalhe tem implicações importantes do ponto de vista regulatório e tecnológico, demonstrando que é possível introduzir melhorias precisas em culturas propagadas vegetativamente, como a batata, sem deixar material genético externo no produto final.

Mais do que uma melhoria estética, a redução do pardeamento pode ter impacto direto na diminuição do desperdício alimentar. Na indústria de processamento, permite reduzir descartes durante o corte e o descasque, aumentar a eficiência na produção de batatas frescas minimamente processadas ou congeladas e diminuir a necessidade de aditivos antioxidantes. Durante o transporte, armazenamento e comercialização, uma melhor estabilidade visual traduz-se em maior vida útil e menor rejeição por parte dos consumidores.

Dados recentes indicam que, em 2024, o Chile desperdiçou cerca de 5,2 milhões de toneladas de alimentos, com quase 300 quilos por pessoa. No caso das hortícolas e raízes, onde se inclui a batata, as taxas de desperdício atingiram cerca de 29% do total disponível, sublinhando a relevância de inovações que actuem na fase pós-colheita.

O desenvolvimento do INIA junta-se a outros exemplos internacionais de aplicação da edição genética para reduzir o escurecimento da batata, mas distingue-se por ter sido realizado directamente numa variedade comercial adaptada ao contexto chileno e sem recurso a transgénicos. Em linha com o enquadramento regulatório do país, estas variedades podem ser avaliadas caso a caso pelo Serviço Agrícola e Pecuário (SAG) e, se consideradas livres de transgenes, avançar para ensaios de campo e eventual comercialização.

Para os investigadores, este avanço confirma o potencial da edição genética como ferramenta estratégica para promover uma agricultura mais eficiente, sustentável e alinhada com os desafios globais da segurança alimentar e da redução do desperdício.

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