Edição genética | Bebé é tratado com CRISPR personalizado pela primeira vezBlog
KJ Muldoon tinha apenas poucos dias de vida quando foi diagnosticado com uma rara doença metabólica e transferido para o Children’s Hospital of Philadelphia, onde os médicos investigavam ativamente novas terapias celulares e génicas.


Um bebé norte-americano de apenas nove meses tornou-se o primeiro paciente do mundo a receber um tratamento de edição genética CRISPR-Cas9 desenhado à medida do seu genoma, na sequência de um diagnóstico de deficiência de CPS1 — uma doença metabólica rara e potencialmente fatal. A intervenção, realizada no Children’s Hospital of Philadelphia, corrigiu a mutação responsável pela incapacidade de eliminar resíduos tóxicos no fígado, permitindo agora ao pequeno KJ Muldoon uma dieta mais rica em proteínas e uma redução significativa na medicação. Os resultados, divulgados ontem no New England Journal of Medicine, abrem caminho para tratamentos personalizados de outras patologias genéticas raras.

O bebé KJ Muldoon nasceu com deficiência de carbamoil-fosfato sintase 1 (CPS1), uma mutação genética que afeta a produção de uma enzima essencial ao bom funcionamento do fígado e impede a eliminação de resíduos tóxicos resultantes do metabolismo. Logo nos primeiros dias de vida, foi-lhe diagnosticada esta condição rara e grave, cujo prognóstico tradicionalmente se resume a alta taxa de mortalidade ou à necessidade de transplante hepático.

Perante a gravidade do caso, os pais, Nicole e Kyle Muldoon, depararam-se com uma decisão quase impossível: sujeitar o filho a um transplante de fígado ou aceitar um tratamento nunca antes administrado em humanos. “O nosso bebé está doente. Ou hacemos um transplante ou damos-lhe um medicamento que nunca foi dado a ninguém antes”, explica Kyle, recordando o momento em que optaram pela segunda via.

A alternativa proposta pelos médicos do Children’s Hospital of Philadelphia baseou-se na técnica CRISPR-Cas9, conhecida como “tesouras moleculares” e laureada com o Prémio Nobel da Química em 2020. Nesta abordagem, centenas de variantes genéticas de KJ foram analisadas para conceber um infuso totalmente personalizado, capaz de corrigir precisamente as letras erradas do seu ADN. “Este medicamento foi desenhado só para o KJ; as variantes genéticas são específicas dele. É medicina personalizada”, afirma a geneticista pediátrica Rebecca Ahrens-Nicklas.

Uma vez administrado por via intravenosa, o infuso desloca-se até ao fígado, onde as moléculas de CRISPR penetram nas células e efectuam o “corte e colagem” que corrige a mutação CPS1. O procedimento decorreu sem complicações graves e, pouco tempo depois, KJ passou a tolerar uma dieta mais rica em proteínas – antes completamente vedada – e a depender de doses significativamente inferiores de medicação para controlar os níveis de amónia no sangue.

Os resultados preliminares deste pioneiro ensaio clínico foram publicados esta quinta-feira no New England Journal of Medicine, sublinhando o impacto potencial da técnica em doentes com outras doenças genéticas raras. Os autores realçam que, embora seja necessário um acompanhamento prolongado para avaliar a segurança e eficácia a longo prazo, as perspetivas são positivas: “Esperamos que ele seja o primeiro de muitos a beneficiar de uma metodologia que pode ser adaptada às necessidades de cada paciente”, conclui Ahrens-Nicklas.

Para já, KJ continuará a ser monitorizado regularmente, mas a família já celebra cada pequena vitória: “Ver o nosso filho crescer sem o peso constante da medicação pesada é um alívio indescritível”, partilha Nicole, emocionada. Este caso histórico assinala um novo capítulo na medicina de precisão, abrindo caminho a tratamentos genéticos feitos à medida de cada paciente.

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