CRISPR | Edição genética corrige ADN e abre caminho para tratar doenças incuráveis do pulmão e fígadoBlog
As pessoas com a condição AATD são propensas a desenvolver enfisema nos pulmões, como mostra a imagem acima. Uma nova terapia genética corrigiu a mutação genética que provoca a AATD.
Créditos da imagem: Bsip/Universal Images Group, via Getty Images

Uma equipa de investigadores deu um passo histórico na medicina ao conseguir, pela primeira vez, corrigir diretamente uma mutação genética no corpo humano usando uma técnica avançada de edição genética. A inovação foi aplicada num ensaio clínico com nove doentes que sofrem de uma doença hereditária rara chamada deficiência de alfa-1 antitripsina (AAT), que afeta os pulmões e o fígado.

A tecnologia utilizada, desenvolvida pela empresa norte-americana Beam Therapeutics, recorreu a nanopartículas lipídicas para transportar instruções genéticas diretamente para as células do fígado. Estas instruções ativam uma versão especial do sistema CRISPR – conhecido por “edição de base” – que corrige uma única letra do ADN responsável pela produção defeituosa da proteína AAT. Esta mutação leva à acumulação de uma proteína tóxica no fígado e à perda de função pulmonar devido à inflamação crónica.

Após uma única infusão intravenosa, os doentes começaram a produzir níveis mais elevados da versão corrigida da proteína, enquanto os níveis da proteína defeituosa diminuíram significativamente. Em alguns casos, os investigadores acreditam que isto poderá travar a progressão dos danos hepáticos e pulmonares.

Esta abordagem marca uma diferença substancial em relação às terapias genéticas convencionais, que muitas vezes dependem da adição de genes saudáveis ou da inativação de genes defeituosos. Aqui, o objetivo foi reparar diretamente o erro genético no ADN dos próprios doentes, devolvendo-lhes a função normal da proteína.

Especialistas em genética, como o Dr. Kiran Musunuru, da Universidade da Pensilvânia, consideram este momento como o início de uma nova era na medicina de precisão. Já o Dr. Richard Lifton, presidente da Universidade Rockefeller, descreveu a técnica como um “santo graal” da medicina genética, por representar uma terapia potencialmente única e definitiva.

Embora os resultados sejam preliminares e se baseiem num número reduzido de participantes, a investigação abre portas a futuras aplicações da edição de base no tratamento de outras doenças genéticas atualmente incuráveis.

A empresa Beam Therapeutics prevê continuar a investigação com doses mais elevadas e estudos mais alargados, com o objetivo de confirmar a segurança e eficácia do tratamento e, no futuro, oferecer uma alternativa real a milhares de doentes em todo o mundo.

Leia a notícia no New York Times.